11/12/2009

Feito á mão

Chegou finalmente o grande calendário do advento encomendado à Rita. O Biscoito não resiste e já mudou os doces de bolso mais vezes que aqueles que comeu. É demasiada emoção, tantos docinhos e surpresinhas enfiados em quadrados tão deliciosos. As meias de lã já estão bordadas e penduradas nas portas e o presépio montado com musgo junto à àrvore de Natal.
Ontem fomos ver O Pai Natal e o Biscoito, ao colo do simpático velhinho, puxou-lhe discretamente as barbas a confirmar que eram verdadeiras. Prometeu que se ía portar bem e perguntou onde estavam as renas. O Pai Natal pediu-lhe que deixasse leite morno e uma bolacha de aveia na chaminé, mas que isso das renas era um segredo dele. Na volta de carro o Biscoito estava muito preocupado por não haver nenhuma bolacha de aveia em casa.
Adoro o Natal.

09/12/2009

Ana

Chego a casa da eslava com os filhos cheios de bolinhos de côco. Ela levanta-se, muito cerimoniosa e visivelmente feliz em nos receber. Uma visita. Faz café e convida-me para um cigarro. Agradeço quero sim, obrigada. Sinto-me à vontade, sem grandes cerimónias e entramos na cozinha. Tudo limpo. Impecável. Parece-me que vejo o meu reflexo nos azulejos brancos. A casa é igual à minha, o mesmo tamanho, as mesmas divisões, a mesma vista para o palácio no jardim da rua de cima.A minha casa é um caos ao pé da dela. Gosta de plantas, todas verdes e exuberantes, a contrastar com a timidez dos meus três potes de heras e orquídias raquíticas. Bebemos e fumamos enquanto ela vai falando. Fala do filho mais novo, do trabalho, de como gosta de Portugal e das laranjas. Pergunto-lhe o que fazia na terra dela. Percebi que era qualquer coisa entre contabilista e engenheira agrónoma. Aqui trabalha a dias e ganha mais do que eu. Fala quatro línguas diferentes e conhece a Europa quase toda. É uma mulher esclarecida. Não lhe pergunto pelo marido porque não quero saber se foi morto durante a ditadura, refugiado político, qualquer desgraça assim. Digo-lhe que os meus sogros têm laranjeiras e um limoeiro e que também os acho bonitos. Ela gosta de conversar, de estar ali de perna cruzada a fumar um cigarro. O filho dela é o melhor aluno da escola e quando for grande quer ser criminalista forense. Os olhos azuis dela brilham como àgua quando fala do filho. Está convencida de que um dia vai ganhar o euromilhões. Já somos duas.

03/12/2009

Tempo de menos

Dou por mim a adormecer ao computador. Aborreço-me de morte.
Queria voltar ao fim de semana passado e tirar tempo para fazer o que ficou pendurado no horizonte das esperanças de um futuro próximo. Queria ter mais tempo para mim, para ti, para nós. Estou a precisar de férias e abençôo este Natal que calha numa sexta feira. O sweet day of nothing doing é num sábado. Só espero que esteja tudo fechado para eu não ter ideia de fazer mais nada senão olhar para os nossos filhos e ver-me feliz.

13/11/2009

Sexta-feira 13

Acordei tarde;
Cheguei uma hora e meia atrasada ao trabalho;
Estacionei o carro no cú de judas;
Entornei o galão em cima das calças brancas,
Só tive chatices;

Agora que o sol se pôs, o dia só pode melhorar.

03/11/2009

Notícias

Desemprego. Violência. Corrupção. Fome. Mortes. Horrores.
Eu, na minha vidinha monótona e insignificante, tenho outros assuntos mais importantes para me preocupar. Preocupo-me com o facto de o Outro Biscoito se destapar à noite e apanhar com a corrente de ar das frinchas da janela porque ainda não tive tempo nem dinheiro para ir comprar o varão dos cortinados para o quarto deles. Preocupo-me porque o Biscoito tem as costelas salientes e imagino que pensem que anda subnutrido. Preocupo-me porque a cadela está com o cio, anda nervosa e não come o suficiente. Preocupo-me com a renovação do meu contrato e com a renovação do contrato do meu marido. preocupo-me porque o Natal está aí à porta e eu a imaginar que o subsídio talvez não chegue para os presentes, para os roupeiros e para os cortinados que precisamos há mais de um ano. Preocupo-me com os almoços e os jantares, as roupas a precisar de remendos, os sapatos que se estragam. Preocupo-me.
Num mundo lá longe, do outro lados das notícias, crianças morrem de fome, morrem afogadas, morrem estropiadas, morrem soterradas. Eu aqui, com tanto amor para dar e tão pouco tempo com os meus filhos. Eu aqui, a chorar porque a comida que sobra do jantar não serve para alimentar aquela gente lá longe. Eu aqui a chorar porque o mundo é tão violento. Eu aqui a chorar porque a nossa vida não é um mar de rosas.
Vou deixar de ler a Ana Cássia. Toca-me demasiado a alma.