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23/04/2017

Mulheres e homens

Estava a passar os olhos pela imprensa nacional, quando parei a ler um artigo que me despertou a atenção. Fala da falta de desejo sexual causado pelo uso da pílula contraceptiva. Mais ainda, sugere, num parágrafo pequenino, que os métodos contraceptivos das mulheres são muito mais invasivos que os dos homens. Ainda bem que alguém fala nisso, aliás, ainda bem que alguém fala na queda vertiginosa do desejo sexual que a pílula causa.
Como mãe de quatro filhos, toda a gente, mas toda a gente mesmo se acha no direito de opinar acerca do método contraceptivo que eu deveria usar. A minha sogra, querida e bem intencionada, até sugeriu que eu devesse "tratar desse problema". Isso mesmo, problema, referindo-se  à minha propensão para engravidar. O meu pai fez bullying intensivo ao meu marido para o convencer a fazer uma vasectomia e a minha mãe teve uma conversa muito franca comigo onde exprimiu a opinião de que devíamos passar a dormir em camas separadas ou mesmo em quartos separados. Para além disto tudo, há sempre piadas sobre equipas de futebol e estar à espera da menina.
A verdade é que nunca pensei em fazer uma laqueação de trompas, são extremamente invasivas e têm complicações que eu preferia evitar, tais como a anestesia geral, as cólicas por bolsas de ar abdominal, infecções, etc. A fazer qualquer coisa de definitivo, passo sempre a batata quente para o meu marido. Ele que se decida a fazer uma vasectomia, muito mais simples e eficaz e muito menos invasiva, com anestesia local, logo, com muito menos riscos.
Dormir em camas separadas não evita coisa nenhuma. O meu marido dorme mais vezes no sofá ou na cama de um dos miúdos do que comigo. Ou porque adormeceu enquanto via um filme, ou porque um dos rapazes teve um sonho mau ou está doente, ou porque o bebé ou mesmo um crescido estão a dormir comigo na nossa cama. Por isso aconselho sempre aos recém casados ou recém pais, camas largas e sofás confortáveis. No meio disto tudo, pim, quatro filhos. Dormir separado não é de todo impedimento. Se eu lhe contasse, ela não ía gostar, mas é verdade.
Durante muitos anos, usei preservativo. Como não tomava a pílula, era a única alternativa, ou isso ou a abstinência. Acho que era a única pessoa do meu universo que não a tomava. A minha mãe levou-me uma vez ao ginecologista e eu saí de lá com uma caixa de pílulas, mas uma semana depois sentia as pernas pesadas, por isso parei. No meio dos filhos, fui experimentando métodos contraceptivos diversos, uma pílula de baixa dosagem funcionou comigo, mas eu esquecia-me de a tomar. O método do calendário continuava a ser o preferido, mas as menstruações causavam-me anemia, por isso, uns quantos filhos depois, tentei um implante anticoncepcional, com o qual me dei muito bem, muito embora as menstruações fossem mínimas, mas muito prolongadas, o que não ajudava à anemia.
Hoje tomo a pílula, que comecei a tomar mal o meu quarto filho nasceu, e faço como muitas raparigas sempre fizeram, tomar a pílula seguida, sem intervalos.
Ainda estou para saber se não será essa uma das grandes causas para a dificuldade que as mulheres sentem em engravidar, o tomar a pílula durante tantos anos sem dar hipótese às células do útero de se renovarem, mas faltam estudos.
Mas o que eu gostei mais no artigo foi mesmo a menção à falta de líbido. Eu noto isso. O meu marido nota isso, e nem tudo se pode desculpar com o cansaço e falta de sono que um recém nascido causa. É da pílula, mesmo, confirmei com algumas amigas, elas dizem exactamente o mesmo. Se eu tivesse passado a minha juventude a tomar a pílula, com menos líbio, teria sido diferente? Só posso presumir que sim.


19/07/2016

Porque reviro eu os olhos de cada vez que alguém repara que estou grávida (do meu 4º filho rapaz)

Isto de estar grávida tem o seu quê de surrealidade.
Estava a escrever à pouco acerca dos conselhos não solicitados de que todas as grávidas são alvo e lembrei-me que também sou constantemente bombardeada com perguntas escabrosas, até indecentes, que nunca de nenhuma maneira alguém se permitiria fazer caso eu estivesse no meu estado normal.
As perguntas não variam muito de pessoa para pessoa, sendo que algumas até aproveitam para contar a história das suas próprias gravidezes (que eu não quero saber), dos seu próprios partos (ooops, demasiada informação), ou dar informações detalhadas sobre como fazer meninas, perder o peso ganho ou qual o métodos contracetivo mais eficaz no mercado.
Poucas pessoas se preocupam realmente com aquilo que eu penso ou estou a passar - e com este calor, estou a passar horrores! As outras, normalmente desconhecidos que se atravessam no nosso caminho e se sentem à vontade para nos interromper o passo e apalpar a barriga, interessam-se sobretudo pela sua própria opinião da minha família ou vida sexual. Pois.
Destacam-se as mais frequentes:

- Isso é das hormonas...
Disse-me várias vezes o meu pai, que é um bruto insensível, o meu marido, que já estava pelos cabelos mas que percebeu rapidamente que não deveria repetir o comentário nunca mais, bem como um cidadão na fila do supermercado. Esse cidadão iluminado achou que eu não tinha razão nenhuma por estar a refilar (educadamente mas a bom som) que a menina da caixa reservada a deficientes físicos, grávidas e acompanhantes de crianças de colo me devia deixar passar à frente das pessoas que lá estavam e que não era nem uma coisa nem outra. Felizmente o bom senso passou a lei, mas não me livro dos comentários "No meu tempo não era assim". Temos pena, no meu já é.

- Que barriga tão grande! É normal?
É sim, é perfeitamente normal. Eu sei, o médico de família sabe, o obstetra sabe, o pediatra sabe, a minha família sabe, por isso não estou minimamente preocupada com o seu tamanho. Isto é o normal para mim, e conheço mulheres com barrigas de todos os tamanhos e feitios que tiveram filhos perfeitamente normais, também eles de todos os tamanhos e feitios. O tamanho da barriga não quer dizer absolutamente nada sobre o tamanho do bebé. Por isso, chiu e acabou aqui a conversa.

- Tem a certeza que não são gémeos?
Tenho a certeza absoluta, minha senhora, acredite em mim, o médico viu várias vezes e é só um, a nadar alegremente na sua bolsa de líquido amniótico.

- Quatro filhos? Que horror!
Olhe que eu não acho. Apesar de ninguém ter nada a ver com isso, aqui para nós, a verdade é que um era impensável, dois pareceu pouco, três não estava a resultar e tenho a certeza de que quatro é que é. Assim, um número redondo, bem cheio, que é como se quer a casa e a mesa do jantar.

- Foram todos planeados?
Lamento, mas não é da sua conta, minha senhora. 

- Todos rapazes? Que horror!
A sério?! Horror é querer e não poder, minha senhora, que isto aqui está tudo como Deus quer e haja saúde. 

- Preferia menino ou menina?
Preferia um filho perfeitamente saudável, e quer-me parecer que vou conseguir outra vez. Diga lá se não são boas notícias, heim?

- Ah, eu quando soube que ía ter um rapaz, chorei.
Eu também, mas foi de felicidade. Lá está, um filho perfeitamente saudável, bem formado e com os dedos todos. É outro rapaz? Melhor ainda, não tenho de me preocupar com montes de coisas que me preocuparia se fosse menina. Assim como assim, já estou habituada a lidar com homens e é mais um para o molho.

- Os rapazes adoram as mães.
E eu e o pai adoramo-los a eles. 

- É a rainha da casa.
Esta parte-me toda, acho este comentário o máximo dos máximos. Eu até uso coroa e vestido de gala quando estou a limpar xixi do assento da sanita e a tirar a roupa infecta da ginástica e restos de sanduíches em avançado estado de decomposição das mochilas da escola.

- Estava a tentar a menina?
Esta perguntam-me logo desde o princípio. Até vejo o desconsolo no olhar das pessoas quando respondo que não, nem por isso, só queria um filho saudável. Esta pergunta, por si só, não me incomoda muito, não fosse o ser habitualmente seguida do:

- Ainda vai tentar a menina? Tem de tentar a princesa!
Só de pensar em ficar outra vez grávida, até fico mal disposta! Não me parece, acho que já chega, tenha-a você. Estou a ficar velha e não gosto mesmo nada de estar grávida. Além do mais, o dinheiro não estica assim tanto para ter agora um quinto filho, ainda para mais uma princesa. Já viu o orçamento só para o guarda-roupa de princesa, cheio de folhinhos e brilhantes? E quando fosse adolescente? Enquanto os rapazes se vestem de t-shirts e polares que partilham mais ou menos alegremente uns com os outros, como é que seria com a princesa? Ah pois, que eu tenho bom gosto e não ía querer que a minha filha andasse por aí a ser confundida com uma pelintra, já viu? 

- Eu sei como conseguir a menina, quer que eu lhe ensine?
Não, obrigada! Lalalalalala não estou a ouvir! Não estou a ouvir! Isso não é manipulação genética? Será ético? Não é suposto ser surpresa? De qualquer maneira, já vem tarde.

- O seu marido não ficou triste?
Não sei, acho que não. Pergunte-lhe. Preferia que ele tivesse tido um desgosto de todo o tamanho e nunca mais ter recuperado? Sabe que o sexo masculino é determinado pelo cromossoma Y, o do pai, não sabe? O bebé é perfeitamente saudável, o que há para ficar triste? Estúpida.

Mas a pior pergunta de todas, quando eu me atrevo a queixar-me de qualquer coisa em voz alta, vem da família e dos amigos mais próximos, os tais que fazem as perguntas mais indiscretas, mas que eu não me importo. Vem mais em jeito de reprimenda, descompostura, de exclamação de espanto por me estar a lamentar: 
- Quem te mandou ter tantos filhos?
Esta até dói. A verdade é que esta frase, dita pelas pessoas que nos são mais próximas, é como uma punhalada no coração. Porque nunca é  de gozo, é de censura. E custa muito a engolir. Ninguém mandou, fui eu que quis e teria todos outra vez. Mas lá por ter "tantos filhos", quer isso dizer que não tenho direito a queixar-me da vida? Que não tenho direito a queixar-me de que estou cansada ou a precisar de um tempo livre? A queixar-me de qualquer coisa que gostaria de fazer mas não consigo por ter tantos filhos ou estar outra vez grávida? Quer isso dizer que só as pessoas que têm um ou dois filhos é que têm direito a queixar-se? A sério? Isso é maldade. Tenham vergonha e tento na língua. Eu agradeço.

Pérolas da opinião alheia e o que eu faço com elas

Estar grávida é absolutamente extraordinário. Não só do ponto de vista biológico, que é por si só assombroso, mas sobretudo do ponto de vista antropológico e, sobretudo, social. Por extraordinário, não quero obrigatoriamente dizer que seja bom, simplesmente que é uma situação fora do normal, pontual e, lá está, extraordinária.
Passar grávida na rua é o mesmo que ter um sinal luminoso a pairar por cima da cabeça. É impossível passar despercebida, pelo menos eu e a minha barriga gigante. É inevitável sentirmo-nos atingidas por olhares escrutinadores de ambos os sexos, muito embora os homens sejam mais discretos do que quando fingem não olhar para o decote de uma mulher que não esteja grávida. Por respeito, suponho, à memória latente das suas próprias mãezinhas.
Tal como é impossível escapar aos tais olhares escrutinadores, é também inevitável sermos agraciadas com o pensamento que o acompanha, dito em voz alta, sem qualquer filtro ou pudor, mesmo que nunca tenhamos visto a pessoa na vida. Esses pensamentos partilhados por estranhos podem ser de vários tipos, consoante a disposição e personalidade da pessoa por quem nos cruzamos. Pode ser um conselho prático, o qual iremos agradecer mentalmente mais tarde quando percebermos que funciona na perfeição, como pode ser uma verdadeira pérola de sabedoria popular ou familiar perfeitamente inútil.
Dentro do primeiro tipo, saliento um, já não me lembro em que circunstâncias o aprendi, que era simplesmente que "os bebés são feitos para andar ao colo". Por alguma razão, essas palavras ecoaram em mim como uma epifania, e desde então, todos os meus filhos andam ao meu colo o mais que eu puder e se eu não puder, ao colo de outra pessoa. Funciona perfeitamente comigo e com os meus filhos, e fiz disso o meu mantra, o qual partilho a quem o quiser ouvir e defendo-o ferozmente nas poucas vezes em que me apanho numa discussões sobre puericultura.
Os pensamentos de segundo tipo, as tais pérolas, são tantos, que dava para escrever um livro. Destes, saliento dois, os que ainda hoje me arrependo de ter seguido e me culpo por ter feito sofrer o meu primeiro filho, mas eu não sabia melhor e quem me deu esse conselho foi TODA A MINHA FAMÍLIA (avó materna, avó paterna, sogra, mãe, pai) e todas as senhoras de proveta idade que eu conhecia e respeitava, exceptuando a minha tia materna (ver acima o comentário do primeiro tipo).
O mais infame de todos é o "deixa-o chorar, não lhe pegues para não ficar mimado". Balelas. Os bebés recém nascidos não se deixam chorar. É uma tortura para eles e para nós, recém mães, que ficamos assoladas por uma angústia enorme e com o coração e as maminhas a doer. Por causa disso, disse o médico, o meu primeiro filho ficou com uma hérnia umbilical do tamanho de uma bola de pingue pongue e anos mais tarde, teve de ser internado no hospital para ser operado, onde ficou conhecido como "o rapaz com o umbigo mais feio do mundo". Deixá-los chorar sozinhos no berço é contraproducente e contranatura e, lá está, os bebés são feitos para andar ao colo.
A segunda pérola que deu para o torto e que eu nunca mais segui foi a transição de leite para sopas e papas aos quatro meses. Compreende-se, num primeiro filho, a excitação era imensa e a curiosidade ainda maior. Mas o meu filho chorava e esperneava como se eu lhe estivesse a fazer algum mal horrível e insistir foi um erro crasso para ele, para mim e para o pai. Foi francamente traumático para mim e acho que uma série de tiques que ele ganhou na infância advêm daí. Infelizmente, a minha excitação ultrapassou o racional e eu não liguei à semântica do folheto do Centro de Saúde que dizia "Aos quatro meses, o bebé pode começar a ingerir alimentos sólidos". PODE e não TEM DE. Faz toda a diferença. Por causa disso, com os outros, comecei a prestar atenção a pequenos sinais que indicavam que o bebé estava pronto para iniciar alimentação sólida. O ter a sensação que dar de mamar não deixava o bebé tão satisfeito assim e o facto de o bebé seguir a colher com o olhar e abrir a boca foram juntos o mais evidente. Cada um deles a seu tempo e a transição correu lindamente,.
Felizmente para mim, tenho tido várias oportunidades para aprender a lidar com um recém nascido. Cada um dos meus filhos foi único desde o primeiro instante, diferente dos outros, com gostos e necessidades muito próprias. Com eles aprendi que cada um é como é e nós, enquanto pais e cuidadores, só temos de observar, respeitar e adaptar. Com esta gravidez, perguntam-me várias vezes como é que eu pretendo fazer acerca do dormir, do dar de mamar, etc, ao que eu respondo invariavelmente:
- Como o bebé quiser e eu conseguir. Simples.

21/04/2016

Incógnitas

A médica pergunta-me porque estou eu já cheia de contrações.
Porque será?


28/09/2015

2015, o ano de todas as perdas

2015 fica na minha memória como o ano de todas as perdas.
Foi o ano em que o meu filho se perdeu, para logo ser encontrado são e salvo. Foi o nosso pequeno milagre de Natal.
Outro filho que quase se perdia e foi resgatado por uma vontade fenomenal. Um filho que se deu bem e que continua bem.
Um filho que não o chegou a ser, que perdemos os dois.
A avó mais querida que nos deixou. Que me deixou, com a sua bênção e a tristeza imensa de nunca mais me ver. Diz que um passarinho vinha pousar no seu peito ao dia em que adormeceu para sempre.
Foi também o ano em que eu cresci.


08/03/2015

Acerca do dia mundial da mulher.


    Pessoalmente, não me incluo nas celebrações deste dia. Não preciso.
    Não fui privada de educação pelos meus pais, nem eles me obrigaram a trabalhar quando eu era apenas uma menina. Pelo contrário, sempre disseram que estudar era a minha obrigação e que  o meu trabalho era estudar.
    Não fui privada de assistência médica, nem de nada que eu precisasse.         Aliás, o meu pai sempre disse que eu teria sempre tudo o que eu precisasse, mas para ter o que eu quisesse, teria de  trabalhar para isso.
    Não fui casada com homem nenhum contra a minha vontade. Antes, casei com o homem que eu escolhi, quando eu assim determinei.
    Tive os filhos que eu quis, quando os quis, todo o acesso a métodos contraceptivos e toda a informaçao que eu precisasse para fazer as minhas escolhas de forma autónoma e esclarecida.
    Sempre votei em quem eu achei melhor, sem que ninguém me impedisse nem tentasse saber em quem eu voto. As vésperas de eleição são, aliás, dias muito debatidos e acesos cá por casa.
    Tive azar nos empregos e fui preterida por ser mulher e por ser mãe. Mas mesmo aí, tive todo o apoio familiar e sindical. Tive, sobretudo, o apoio do meu marido para poder escolher ser o que eu quisesse.
    Hoje, sou o que eu quero ser e tenho sonhos para ser mais e melhor. O meu marido acha optimo e ajuda-me. Imenso.
    Por isso, o dia internacional da mulher não é para mim. É pena que não seja assim para todas as mulheres do mundo. É pena que ainda seja necessário um dia especial no ano para nos lembrarmos disso.


11/02/2014

Detox vitalícia

Tenho 36 anos.
Timidamente,  surgem fios de cabelo branco. Umas rugas ao canto dos olhos e da boca. Papos nos olhos. Duplo queixo (ou assim parece). Estrias, pneuzinhos,  derrames e uma variz.
Estou velha.
Deixei de fumar hoje.
Ontem troquei o leite de vaca pelo de soja.
Deixei de pôr leite no café.
Há duas semanas que o único doce que como é o que tiver sido feito por mim.
Há um mês passei a usar arroz e farinha integral.
Espera-se uma pele radiosa e energia contagiante nos proximos tempos.

14/11/2013

Conceitos abstractos bué avançados

Ontem, ao ajudar o Biscoito a fazer os trabalhos de casa, deparei-me com uma pergunta que até a mim me deu que pensar e da qual eu duvidei seriamente se seria realmente adequada ao primeiro período de um 3º ano:

"_____________ é o conjunto de pontos equidistantes de um ponto central de uma superfície" e mais uns quantos palavrões que eu agora não me recordo. Mas a resposta era esfera, sim, não era círculo, era esfera.

Depois de puxar um bocado pelos neurónios, perguntei-lhe - Sabes o que é uma recta? Claro, era um traço, uma coisa assim, e desenhou um risco no papel.
Perguntei-lhe se sabia que uma recta era um conjunto de pontos infinitos delimitados no espaço. Rebolou os olhos em admiração.
Percebi então que o grande problema eram as palavras. "Conjunto de pontos" e "equidistantes" era algo que ele não compreendia.
Expliquei- lhe o significado de equidistante, mas vi que o miúdo estava com alguma dificuldade em compreender a noção de ponto.

Agora estou a (re)ler as noções básicas de geometria euclediana para lhe fazer perceber que um ponto é, e segundo a Wikipédia, " uma noção primitiva pela qual outros conceitos são definidos.Um ponto determina uma posição no espaço. Na Geometria, pontos não possuem volume, área, comprimento ou qualquer dimensão semelhante. Assim, um ponto é um objeto de dimensão 0 (zero). Um ponto também pode ser definido como uma esfera de diâmetro zero."

Acho que vamos ter aqui uma mini-viagem psicadélica a outra dimensão. A banda sonora vai ser Doors.

Agora muito a sério. Estive há pouco a conversar com um professor de matemática, que me garantiu que as metas curriculares deste ano a matemática são completamente irracionais. Ao que parece, está mesmo escrito numa directiva qualquer que o que é necessário, é que a criança saiba o conceito de cor, independentemente de o compreender ou não. Presume-se que o que é necessário é o brilharete no exame final para esfregar na tromba dos senhores que regulam as directivas europeias da educação como afinal somos iguais aos  suecos  e aos dinamarqueses. 

Não se percebe. Não percebo. Infelizmente, o meu filho também não.

01/10/2013

Trabalho

Dou por mim tão desinteressada que até me faz aflição.
E pensar que estou a criar filhos para isto...

18/08/2013

Restaurante chique vs tasca de bairro

O meu marido louva a minha capacidade de me comportar exactamente da mesma forma numa tasca e num restaurante de cinco estrelas.

Explicou-me ele que a diferença estava na atenciosidade do empregado de mesa, não nos meus modos, e que eu não posso esperar que o da tasca atente ao meu pedido como o do resturante chique.

Quer-me parecer que foi um elogio.

10/07/2013

Derreter lentamente em Lisboa

O calor é quase sufocante. A casa aquece durante o dia, as plantas definham de sede todos os dias e as ventoinhas fazem circular ar quente e seco.
Saio do duche directamente para as roupas de vestir, tentando a custo sentir alguma frescura na pele. De pouco vale. O tempo que demoro é mais que suficiente para secar qualquer gotícula desta tão preciosa àgua.
Recuso-me a mexer-me sem ter absoluta necessidade de o fazer, e quando o faço, é normalmente para enfiar a cabeça no frigorífico ou debaixo do chuveiro.
Àgua fresca na minha pele, por favor!
Vou para o emprego com vontade, já que no escritório o ar condicionado funciona a todo o gás. Os almoços passo-os na relva, à sombra da àrvore do pátio, porque o calor das marmitas sufoca o ambiente da cantina e ninguém o aguenta.
O carro escalda e é uma tortura. Levo garrafas de àgua para ir buscar os miúdos, que eles bebem sofregamente e despejam o resto por cima das cabeças suadas. As janelas abertas deixam entrar ar - quente. Todos sofremos, uns mais, outros menos.
O leite do biberon que o Novo Biscoito leva para a cama, tem de ir gelado para não coalhar. As portas e as janelas escancaradas a ver se conseguimos alguma corrente de ar, as portas e as janelas fechadas a ver se conseguimos manter o frio cá dentro.
Passo a tarde a borrifar àgua pela casa, tentando manter uma humidade relativa agradável, senão o calor seca tudo, narinas inclusivé.
 Ainda não fui à praia com medo do calor. O fato de banho faz-me suar só de olhar para ele, e os biquinis ainda não me ficam bem. Estou uma lástima. Só me apetece andar nua por todo o lado e ignorar que a minha barriga está flácida e as minhas maminhas estão bem mais em baixo do que eu pensava.






08/05/2013

Friends request

Esta semana encontrei no FB a minha melhor amiga dos tempos do colégio. Continua igual ao quer era, o mesmo sorriso, o mesmo corte de cabelo. Pelas fotos vi que tem um filho e trabalha no mesmo que a mãe, tal como sempre dissera que faria.
Outra amiga, da faculdade, encontrou-me a mim no FB. Tornou-se arqueóloga. E eu fiquei triste. Fiquei triste, porque eu também era suposto ter-me tornado paleógrafa, mas a maternidade meteu-se pelo meio e tive de arranjar um salário certo num horário certo.
Ainda me dói cada vez que abro a gaveta com a tese incompleta e os milhares de apontamentos.
Hoje ao almoço, algumas colegas minhas, todas na casa dos 30, conversaram em como querem ter filhos, outras nem pensam nisso. Só eu é que tenho filhos do grupinho do almoço, três ainda por cima, e ainda me debato com a angústia de ter de decidir terminar por aqui ou continuar a parir até aos 40, coisa que as minhas colegas acham um acesso de insanidade temporária.
Não as percebo, eu com a idade delas já tinha dois, e nem por isso os tive muito nova.
Acho que há mulheres que nascem para ser o que sempre quiseram.
Outras, nascem para ter filhos. Como eu.

26/04/2013

Such a perfect day

Porque há dias assim, em que a vida nos pisca o olho e mal de nós se não os aproveitássemos. Hoje foi um desses dias.
Há anos que não estávamos os dois um dia inteiro sem filhos, sem qualquer obrigação que não fosse aproveitar o sol e a companhia um do outro.
Praia, sol, almoço na esplanada, um saltinho à sapataria para encontrar os sapatos que tanta falta faziam no guarda-roupa, os filhos à saída da escola e o jantar sem cenas, com os miúdos a discutir pelo último pedaço, em vez de ser a berrar que não querem ou não gostarem.
E agora um filme e deixarmo-nos adormecer no meio das almofadas, sem qualquer preocupação na vida.

05/03/2013

Os meus filhos são uns selvagens

Segunda-feira ao principio da noite, a chamada "hora da loucurinha cósmica" cá em casa. 
Estamos todos em casa e o pai decide ir passear o cão. Eu pego no Novo Biscoito para o ir deitar e deixo os dois Biscoitos mais velhos na cozinha, sentados à mesa a começar a jantar.
Ponho o novo Biscoito na caminha de grades e começo a despi-lo para lhe mudar a fralda. Viro-me por um milésimo de segundo para alacançar a fralda nova e ele começa a rir-se - está a fazer chichi por cima de tudo o que a cama tem, a saber, um edredão, uma almofada, um cobertor e três peluches, mais a fralda suja e as calças. Pego no Novo Biscoito e coloco-o no chão, tiro tudo se cima da cama numa grande trouxa de roupa cheia de chichi, mais a fralda e o João, que era suposto estar ao meu lado, afinal está na sala a chorar. Corro para ver o que se passa (que o choro era de aflição) e tropeço no carrinho que o Outro Biscoito deixou estacionado mesmo à frente da porta. Estatelo-me em grande estilo no chão, mais a trouxa de roupa cheia de chichi e a fralda suja, mas ainda consigo ver que o motivo do choro é o Outro Biscoito a puxar o Novo Biscoito por uma perna, enquanto este tenta desesperadamente manter-se em cima do sofá. Nesse preciso instante, o Biscoito que ficou sentado à mesa a jantar, cai do banco (como raio é que uma pessoa tropeça sentada isso é que eu não sei) e leva o prato com o jantar e tudo o que consegue alcaçar atrás, jantar, loiça, copos de àgua, tudo espalhado no chão numa confusão de ervilhas e cacos. Fecho-me no quarto a chorar até o marido chegar e me dizer que vai ficar tudo bem. 

Passei o resto da noite a afogar as mágoas ao longo de duas horas de Clive Owen e Til Schweiger em versão alta idade média (muito sexy, por sinal).


02/03/2013

O meu país descontente com o rumo da Democracia.

Nunca na minha vida pensei ir para a rua gritar contra um governo democraticamente eleito.
Foi de partir o coração ver os avós que lutaram contra a ditadura, pais que lutaram na guerra, amigos que nasceram no ano das primeiras eleições democráticas gritar "Abaixo o governo".
Nunca ninguém alguma vez sonhou chegarmos a este ponto.
Não foi este o país que sonharam para mim. Não é este o país que eu quero para os meus filhos.
Hei-de ir para a rua gritar por um Portugal melhor as vezes que forem necessárias até isso acontecer. Acompanhada pela memória de todos aqueles que morreram pelo sonho de um país democrático, e pelos que todos os dias lutam por um futuro melhor.

SOMOS DEMOCRACIA
SOMOS MANIFESTAÇÃO
SOMOS JUSTIÇA E
SOMOS REVOLUÇÃO!