26/02/2010

As rosas


As rosas da casa da minha avó morreram. Os caules murcharam e os botões definharam desde que a minha avó morreu. 
Entro na casa e o cheiro de casa-museu casa-morta invade-me as narinas. Bem lá no fundo do nariz, junto ao cérebro e ao sítio onde se armazenam as memórias que valem a pena relembrar, o cheiro da minha avó.
Olho o fogão e a cadeira onde me sentava a vê-la cozinhar. O bolo mármore perfeito, o refogado com tomate, a cabidela para o meu pai e as omeletes que eu aprendi a não desmanchar.
Abro as arcas e encontro os tesouros da minha infância. O vestido de renda creme e o de tule com uma só alça, colchas e outros lavoures. Carteiras, casacos e dois smokings completos, um sobretudo de cachemira. Na saleta onde ela dançava connosco, a vitrine com as cigarreiras do meu avô, os copos de cristal. Uma caixa sem bombons, um baton "Rouge" Chanel e fotografias de Àfrica.
Também as rosas têm saudades dela.

22/02/2010

Carnaval

Festa faz bem ao casamento e muito mal à saude...

02/02/2010

Pouca vontade de trabalhar

Pergunto-me se será possível ficar a esfregar o olho esquerdo durante os seis minutos que faltam para a minha hora de almoço.

29/01/2010

Noites frias

As noites estão frias e o meu quarto gelado. Para me aquecer e adormecer os Biscoitos, temos dormido juntinhos na cama grande.
A cama grande é a minha. É de latão e era dos meus pais.
Acontece que muitas vezes o Pai é o último a chegar e já não cabe. Está lá uma mãe, dois filhos e algumas vezes um cão, não sobra espaço nenhum para mais ninguém.
Adoro ouvir os meus filhos a dormir e ficar rodeada do cheiro deles. É bom.

25/01/2010

Carta ao Pai

Olá Pai,

Estamos bem, ainda não vi se me mandaste dinheiro, mas como enchi o depósito na 6ª feira e o multibanco não bloqueou, quer-me parecer que sim, que o dinheiro chegou.
Mais uma vez obrigada, dá muito jeito, confesso, porque este ano não vou ser promovida nem aumentada. Ossos do ofício.

Fora isso, no emprego está tudo bem, o Ricardo também se está a dar-se bem e os miúdos continuam umas pestes.

O cão pensa que o Pedro é cachorro e são inseparáveis. Comem do mesmo prato, do mesmo talher, rebolam-se juntos e poem-me louca. O Pedro ainda não usa o bacio, porque das primeiras vezes que o sentei lá, a Sutra foi atrás e comeu os cocós. O Pedro (e a Sutra) comem tudo o que se lhes põe à frente e dormem bem. O Pedro já diz mais algumas palavras, a maior parte delas incompreensíveis para nós, mas fala e canta imenso lá naquela língua dele. Um gozo, digo-te.
O Francisco está mais crescido, agora quer ir perfumado para a escola por causa de uma miúda chamada Mariana e anda sempre meio nú "para mostrar os músculos". Não come nada de jeito e é uma tortura para comer "coisas verdes". Continua a acordar de noite para vir dormir na nossa cama mas nunca mais fez xixi. Já escreve e começa agora a ler, muito mal e muito pouco, mas já mostra vontade. Coisa engraçada, entendeu que espírito e corpo são duas coisas diferentes e fica muito preocupado com o que será que lhe acontece (ao espírito) quando o corpo dele morrer e se transformar em "comida para plantas". Não se mostra por aí angustiado e ninguém está muito preocupado com isso, afinal, nós também não sabemos o que é que acontece. É extremamente protector em relação ao Pedro, apesar de lhe dar umas coças fenomenais quando o Pedro o chateia.
São adoráveis.

Estamos com saudades vossas.
Beijo grande
Filipa