23/04/2017

Mulheres e homens

Estava a passar os olhos pela imprensa nacional, quando parei a ler um artigo que me despertou a atenção. Fala da falta de desejo sexual causado pelo uso da pílula contraceptiva. Mais ainda, sugere, num parágrafo pequenino, que os métodos contraceptivos das mulheres são muito mais invasivos que os dos homens. Ainda bem que alguém fala nisso, aliás, ainda bem que alguém fala na queda vertiginosa do desejo sexual que a pílula causa.
Como mãe de quatro filhos, toda a gente, mas toda a gente mesmo se acha no direito de opinar acerca do método contraceptivo que eu deveria usar. A minha sogra, querida e bem intencionada, até sugeriu que eu devesse "tratar desse problema". Isso mesmo, problema, referindo-se  à minha propensão para engravidar. O meu pai fez bullying intensivo ao meu marido para o convencer a fazer uma vasectomia e a minha mãe teve uma conversa muito franca comigo onde exprimiu a opinião de que devíamos passar a dormir em camas separadas ou mesmo em quartos separados. Para além disto tudo, há sempre piadas sobre equipas de futebol e estar à espera da menina.
A verdade é que nunca pensei em fazer uma laqueação de trompas, são extremamente invasivas e têm complicações que eu preferia evitar, tais como a anestesia geral, as cólicas por bolsas de ar abdominal, infecções, etc. A fazer qualquer coisa de definitivo, passo sempre a batata quente para o meu marido. Ele que se decida a fazer uma vasectomia, muito mais simples e eficaz e muito menos invasiva, com anestesia local, logo, com muito menos riscos.
Dormir em camas separadas não evita coisa nenhuma. O meu marido dorme mais vezes no sofá ou na cama de um dos miúdos do que comigo. Ou porque adormeceu enquanto via um filme, ou porque um dos rapazes teve um sonho mau ou está doente, ou porque o bebé ou mesmo um crescido estão a dormir comigo na nossa cama. Por isso aconselho sempre aos recém casados ou recém pais, camas largas e sofás confortáveis. No meio disto tudo, pim, quatro filhos. Dormir separado não é de todo impedimento. Se eu lhe contasse, ela não ía gostar, mas é verdade.
Durante muitos anos, usei preservativo. Como não tomava a pílula, era a única alternativa, ou isso ou a abstinência. Acho que era a única pessoa do meu universo que não a tomava. A minha mãe levou-me uma vez ao ginecologista e eu saí de lá com uma caixa de pílulas, mas uma semana depois sentia as pernas pesadas, por isso parei. No meio dos filhos, fui experimentando métodos contraceptivos diversos, uma pílula de baixa dosagem funcionou comigo, mas eu esquecia-me de a tomar. O método do calendário continuava a ser o preferido, mas as menstruações causavam-me anemia, por isso, uns quantos filhos depois, tentei um implante anticoncepcional, com o qual me dei muito bem, muito embora as menstruações fossem mínimas, mas muito prolongadas, o que não ajudava à anemia.
Hoje tomo a pílula, que comecei a tomar mal o meu quarto filho nasceu, e faço como muitas raparigas sempre fizeram, tomar a pílula seguida, sem intervalos.
Ainda estou para saber se não será essa uma das grandes causas para a dificuldade que as mulheres sentem em engravidar, o tomar a pílula durante tantos anos sem dar hipótese às células do útero de se renovarem, mas faltam estudos.
Mas o que eu gostei mais no artigo foi mesmo a menção à falta de líbido. Eu noto isso. O meu marido nota isso, e nem tudo se pode desculpar com o cansaço e falta de sono que um recém nascido causa. É da pílula, mesmo, confirmei com algumas amigas, elas dizem exactamente o mesmo. Se eu tivesse passado a minha juventude a tomar a pílula, com menos líbio, teria sido diferente? Só posso presumir que sim.


01/02/2017

A Letter to the US from John Cleese



A Letter To the US




from John Cleese




To the citizens of the United States of America, in light of your failure to elect a competent President of the USA and thus to govern yourselves, we hereby give notice of the revocation of your independence, effective today. 


Her Sovereign Majesty Queen Elizabeth II resumes monarchical duties over all states, commonwealths and other territories. Except Utah, which she does not fancy. 


Your new prime minister (The Right Honourable Theresa May, MP for the 97.8% of you who have, until now, been unaware there's a world outside your borders) will appoint a minister for America. Congress and the Senate are disbanded. A questionnaire circulated next year will determine whether any of you noticed. 


To aid your transition to a British Crown Dependency, the following rules are introduced with immediate effect: 


1. Look up "revocation" in the Oxford English Dictionary. Check "aluminium" in the pronunciation guide. You will be amazed at just how wrongly you pronounce it. The letter 'U' will be reinstated in words such as 'favour' and 'neighbour'. Likewise you will learn to spell 'doughnut' without skipping half the letters. Generally, you should raise your vocabulary to acceptable levels. Look up "vocabulary." Using the same twenty seven words interspersed with filler noises such as "like" and "you know" is an unacceptable and inefficient form of communication. Look up "interspersed." There will be no more 'bleeps' in the Jerry Springer show. If you're not old enough to cope with bad language then you should not have chat shows. 


2. There is no such thing as "US English." We'll let Microsoft know on your behalf. The Microsoft spell-checker will be adjusted to take account of the reinstated letter 'u'. 


3. You should learn to distinguish English and Australian accents. It really isn't that hard. English accents are not limited to cockney, upper-class twit or Mancunian (Daphne in Frasier). Scottish dramas such as 'Taggart' will no longer be broadcast with subtitles.You must learn that there is no such place as Devonshire in England. The name of the county is "Devon." If you persist in calling it Devonshire, all American States will become "shires" e.g. Texasshire Floridashire, Louisianashire. 


4. You should relearn your original national anthem, "God Save The Queen", but only after fully carrying out task 1. 


5. You should stop playing American "football." There's only one kind of football. What you call American "football" is not a very good game. The 2.1% of you aware there is a world outside your borders may have noticed no one else plays "American" football. You should instead play proper football. Initially, it would be best if you played with the girls. Those of you brave enough will, in time, be allowed to play rugby (which is similar to American "football", but does not involve stopping for a rest every two seconds or wearing full kevlar body armour like nancies) You should stop playing baseball. It's not reasonable to host event called the 'World Series' for a game which is not played outside of America. Instead of baseball, you will be allowed to play a girls' game called "rounders," which is baseball without fancy team stripe, oversized gloves, collector cards or hotdogs. 


6. You will no longer be allowed to own or carry guns, or anything more dangerous in public than a vegetable peeler. Because you are not sensible enough to handle potentially dangerous items, you need a permit to carry a vegetable peeler. 


7. July 4th is no longer a public holiday. November 2nd will be a new national holiday. It will be called "Indecisive Day." 


8. All American cars are hereby banned. They are crap and it is for your own good. When we show you German cars, you will understand what we mean. All road intersections will be replaced with roundabouts, and you will start driving on the left. At the same time, you will go metric without the benefit of conversion tables. Roundabouts and metrication will help you understand the British sense of humour. 


9. Learn to make real chips. Those things you call French fries are not real chips. Fries aren't French, they're Belgian though 97.8% of you (including the guy who discovered fries while in Europe) are not aware of a country called Belgium. Potato chips are properly called "crisps." Real chips are thick cut and fried in animal fat. The traditional accompaniment to chips is beer which should be served warm and flat. 


10. The cold tasteless stuff you call beer is actually lager. Only proper British Bitter will be referred to as "beer." Substances once known as "American Beer" will henceforth be referred to as "Near-Frozen Gnat's Urine," except for the product of the American Budweiser company which will be called "Weak Near-Frozen Gnat's Urine." This will allow true Budweiser (as manufactured for the last 1000 years in Pilsen, Czech Republic) to be sold without risk of confusion. 


11. The UK will harmonise petrol prices (or "Gasoline," as you will be permitted to keep calling it) for those of the former USA, adopting UK petrol prices (roughly $6/US gallon, get used to it). 


12. Learn to resolve personal issues without guns, lawyers or therapists. That you need many lawyers and therapists shows you're not adult enough to be independent. If you're not adult enough to sort things out without suing someone or speaking to a therapist, you're not grown up enough to handle a gun. 


13. Please tell us who killed JFK. It's been driving us crazy. 


14. Tax collectors from Her Majesty's Government will be with you shortly to ensure the acquisition of all revenues due (backdated to 1776). 


Thank you for your co-operation. 


* John Cleese [Basil Fawlty, Fawlty Towers, Sir Lancelot of Camelot (Monty Python & The Quest for the Holy Grail), Torquay, Devon, England]

12/11/2016

O cachecol da avó

Pegar no trabalho que a avó deixou. Sentir as agulhas com o arco que as mãos da avó pressionaram. Tricotar de forma diferente da habitual. Tricotar como se fôssemos a avó e choramingar de saudades

15/09/2016

Viver perigosamente

Viver perigosamente é achar que duas fraldas são suficientes até as compras chegarem.

09/09/2016

Cuidados Intermédios

O Biscoito n°4 recuperou bem. Era o Golias da UCERN, no meio daqueles ratinhos todos, uns já veteranos de 70 dias, outros acabados de chegar.
Do outro lado do vidro fosco, os fios dos aparelhos que monitorizam os internos dos Cuidados Intensivos. De vez em quando um bip mais estridente e os passos apressados das enfermeiras. Mas já não era nada connosco, era todo outro mundo, do outro lado do vidro fosco.
Do lado de cá, risos de adultos e choro de bebés. Os melhores sons do mundo para os nosso ouvidos. Os bebés já com nome próprio, escrito a seguir ao apelido das mães, nas etiquetas por cima das encubadoras.
Eu já podia fazer festas no meu biscoitinho. Depois, já podia pegar nele. Uns dias depois, passaram-no para o berço e já pôde mamar. Depois tiraram-lhe a sonda e assim que eu tive alta, montei acampamento ao lado dele. Mais tarde, as enfermeiras convenceram-me a ir dormir a casa. E eu fui.
Só quando me deitei é que percebi o quanto etava cansada e dorida. Os meus pés pareciam patas de elefante, as minhas costas estavam dormentes. A cabeça latejava até aos maxilares. Mas eu estava descansada. Uns dias depois, fomos mandados para casa com o bebé mais precioso do mundo ao colo.

O nome

Os bebés da UCI não têm nome próprio. São identificados pelo último apelido da mãe.
Há bips e pis constantes, numa orquestra desconcertada de tubos de ventilação, sondas gástricas e muitos monitores cardíacos.
Há pais que se colam às paredes das encubadoras e só descolam quando o corpo deixa de suportar aquela desconfortável posição. Há mães que cantam baixinho para o plexiglas, outras que sorriem quando o bebé minúsculo que ali termina o seu crescimento se move. Mas há sobretudo os que choram em silêncio.

19/07/2016

Porque reviro eu os olhos de cada vez que alguém repara que estou grávida (do meu 4º filho rapaz)

Isto de estar grávida tem o seu quê de surrealidade.
Estava a escrever à pouco acerca dos conselhos não solicitados de que todas as grávidas são alvo e lembrei-me que também sou constantemente bombardeada com perguntas escabrosas, até indecentes, que nunca de nenhuma maneira alguém se permitiria fazer caso eu estivesse no meu estado normal.
As perguntas não variam muito de pessoa para pessoa, sendo que algumas até aproveitam para contar a história das suas próprias gravidezes (que eu não quero saber), dos seu próprios partos (ooops, demasiada informação), ou dar informações detalhadas sobre como fazer meninas, perder o peso ganho ou qual o métodos contracetivo mais eficaz no mercado.
Poucas pessoas se preocupam realmente com aquilo que eu penso ou estou a passar - e com este calor, estou a passar horrores! As outras, normalmente desconhecidos que se atravessam no nosso caminho e se sentem à vontade para nos interromper o passo e apalpar a barriga, interessam-se sobretudo pela sua própria opinião da minha família ou vida sexual. Pois.
Destacam-se as mais frequentes:

- Isso é das hormonas...
Disse-me várias vezes o meu pai, que é um bruto insensível, o meu marido, que já estava pelos cabelos mas que percebeu rapidamente que não deveria repetir o comentário nunca mais, bem como um cidadão na fila do supermercado. Esse cidadão iluminado achou que eu não tinha razão nenhuma por estar a refilar (educadamente mas a bom som) que a menina da caixa reservada a deficientes físicos, grávidas e acompanhantes de crianças de colo me devia deixar passar à frente das pessoas que lá estavam e que não era nem uma coisa nem outra. Felizmente o bom senso passou a lei, mas não me livro dos comentários "No meu tempo não era assim". Temos pena, no meu já é.

- Que barriga tão grande! É normal?
É sim, é perfeitamente normal. Eu sei, o médico de família sabe, o obstetra sabe, o pediatra sabe, a minha família sabe, por isso não estou minimamente preocupada com o seu tamanho. Isto é o normal para mim, e conheço mulheres com barrigas de todos os tamanhos e feitios que tiveram filhos perfeitamente normais, também eles de todos os tamanhos e feitios. O tamanho da barriga não quer dizer absolutamente nada sobre o tamanho do bebé. Por isso, chiu e acabou aqui a conversa.

- Tem a certeza que não são gémeos?
Tenho a certeza absoluta, minha senhora, acredite em mim, o médico viu várias vezes e é só um, a nadar alegremente na sua bolsa de líquido amniótico.

- Quatro filhos? Que horror!
Olhe que eu não acho. Apesar de ninguém ter nada a ver com isso, aqui para nós, a verdade é que um era impensável, dois pareceu pouco, três não estava a resultar e tenho a certeza de que quatro é que é. Assim, um número redondo, bem cheio, que é como se quer a casa e a mesa do jantar.

- Foram todos planeados?
Lamento, mas não é da sua conta, minha senhora. 

- Todos rapazes? Que horror!
A sério?! Horror é querer e não poder, minha senhora, que isto aqui está tudo como Deus quer e haja saúde. 

- Preferia menino ou menina?
Preferia um filho perfeitamente saudável, e quer-me parecer que vou conseguir outra vez. Diga lá se não são boas notícias, heim?

- Ah, eu quando soube que ía ter um rapaz, chorei.
Eu também, mas foi de felicidade. Lá está, um filho perfeitamente saudável, bem formado e com os dedos todos. É outro rapaz? Melhor ainda, não tenho de me preocupar com montes de coisas que me preocuparia se fosse menina. Assim como assim, já estou habituada a lidar com homens e é mais um para o molho.

- Os rapazes adoram as mães.
E eu e o pai adoramo-los a eles. 

- É a rainha da casa.
Esta parte-me toda, acho este comentário o máximo dos máximos. Eu até uso coroa e vestido de gala quando estou a limpar xixi do assento da sanita e a tirar a roupa infecta da ginástica e restos de sanduíches em avançado estado de decomposição das mochilas da escola.

- Estava a tentar a menina?
Esta perguntam-me logo desde o princípio. Até vejo o desconsolo no olhar das pessoas quando respondo que não, nem por isso, só queria um filho saudável. Esta pergunta, por si só, não me incomoda muito, não fosse o ser habitualmente seguida do:

- Ainda vai tentar a menina? Tem de tentar a princesa!
Só de pensar em ficar outra vez grávida, até fico mal disposta! Não me parece, acho que já chega, tenha-a você. Estou a ficar velha e não gosto mesmo nada de estar grávida. Além do mais, o dinheiro não estica assim tanto para ter agora um quinto filho, ainda para mais uma princesa. Já viu o orçamento só para o guarda-roupa de princesa, cheio de folhinhos e brilhantes? E quando fosse adolescente? Enquanto os rapazes se vestem de t-shirts e polares que partilham mais ou menos alegremente uns com os outros, como é que seria com a princesa? Ah pois, que eu tenho bom gosto e não ía querer que a minha filha andasse por aí a ser confundida com uma pelintra, já viu? 

- Eu sei como conseguir a menina, quer que eu lhe ensine?
Não, obrigada! Lalalalalala não estou a ouvir! Não estou a ouvir! Isso não é manipulação genética? Será ético? Não é suposto ser surpresa? De qualquer maneira, já vem tarde.

- O seu marido não ficou triste?
Não sei, acho que não. Pergunte-lhe. Preferia que ele tivesse tido um desgosto de todo o tamanho e nunca mais ter recuperado? Sabe que o sexo masculino é determinado pelo cromossoma Y, o do pai, não sabe? O bebé é perfeitamente saudável, o que há para ficar triste? Estúpida.

Mas a pior pergunta de todas, quando eu me atrevo a queixar-me de qualquer coisa em voz alta, vem da família e dos amigos mais próximos, os tais que fazem as perguntas mais indiscretas, mas que eu não me importo. Vem mais em jeito de reprimenda, descompostura, de exclamação de espanto por me estar a lamentar: 
- Quem te mandou ter tantos filhos?
Esta até dói. A verdade é que esta frase, dita pelas pessoas que nos são mais próximas, é como uma punhalada no coração. Porque nunca é  de gozo, é de censura. E custa muito a engolir. Ninguém mandou, fui eu que quis e teria todos outra vez. Mas lá por ter "tantos filhos", quer isso dizer que não tenho direito a queixar-me da vida? Que não tenho direito a queixar-me de que estou cansada ou a precisar de um tempo livre? A queixar-me de qualquer coisa que gostaria de fazer mas não consigo por ter tantos filhos ou estar outra vez grávida? Quer isso dizer que só as pessoas que têm um ou dois filhos é que têm direito a queixar-se? A sério? Isso é maldade. Tenham vergonha e tento na língua. Eu agradeço.

Pérolas da opinião alheia e o que eu faço com elas

Estar grávida é absolutamente extraordinário. Não só do ponto de vista biológico, que é por si só assombroso, mas sobretudo do ponto de vista antropológico e, sobretudo, social. Por extraordinário, não quero obrigatoriamente dizer que seja bom, simplesmente que é uma situação fora do normal, pontual e, lá está, extraordinária.
Passar grávida na rua é o mesmo que ter um sinal luminoso a pairar por cima da cabeça. É impossível passar despercebida, pelo menos eu e a minha barriga gigante. É inevitável sentirmo-nos atingidas por olhares escrutinadores de ambos os sexos, muito embora os homens sejam mais discretos do que quando fingem não olhar para o decote de uma mulher que não esteja grávida. Por respeito, suponho, à memória latente das suas próprias mãezinhas.
Tal como é impossível escapar aos tais olhares escrutinadores, é também inevitável sermos agraciadas com o pensamento que o acompanha, dito em voz alta, sem qualquer filtro ou pudor, mesmo que nunca tenhamos visto a pessoa na vida. Esses pensamentos partilhados por estranhos podem ser de vários tipos, consoante a disposição e personalidade da pessoa por quem nos cruzamos. Pode ser um conselho prático, o qual iremos agradecer mentalmente mais tarde quando percebermos que funciona na perfeição, como pode ser uma verdadeira pérola de sabedoria popular ou familiar perfeitamente inútil.
Dentro do primeiro tipo, saliento um, já não me lembro em que circunstâncias o aprendi, que era simplesmente que "os bebés são feitos para andar ao colo". Por alguma razão, essas palavras ecoaram em mim como uma epifania, e desde então, todos os meus filhos andam ao meu colo o mais que eu puder e se eu não puder, ao colo de outra pessoa. Funciona perfeitamente comigo e com os meus filhos, e fiz disso o meu mantra, o qual partilho a quem o quiser ouvir e defendo-o ferozmente nas poucas vezes em que me apanho numa discussões sobre puericultura.
Os pensamentos de segundo tipo, as tais pérolas, são tantos, que dava para escrever um livro. Destes, saliento dois, os que ainda hoje me arrependo de ter seguido e me culpo por ter feito sofrer o meu primeiro filho, mas eu não sabia melhor e quem me deu esse conselho foi TODA A MINHA FAMÍLIA (avó materna, avó paterna, sogra, mãe, pai) e todas as senhoras de proveta idade que eu conhecia e respeitava, exceptuando a minha tia materna (ver acima o comentário do primeiro tipo).
O mais infame de todos é o "deixa-o chorar, não lhe pegues para não ficar mimado". Balelas. Os bebés recém nascidos não se deixam chorar. É uma tortura para eles e para nós, recém mães, que ficamos assoladas por uma angústia enorme e com o coração e as maminhas a doer. Por causa disso, disse o médico, o meu primeiro filho ficou com uma hérnia umbilical do tamanho de uma bola de pingue pongue e anos mais tarde, teve de ser internado no hospital para ser operado, onde ficou conhecido como "o rapaz com o umbigo mais feio do mundo". Deixá-los chorar sozinhos no berço é contraproducente e contranatura e, lá está, os bebés são feitos para andar ao colo.
A segunda pérola que deu para o torto e que eu nunca mais segui foi a transição de leite para sopas e papas aos quatro meses. Compreende-se, num primeiro filho, a excitação era imensa e a curiosidade ainda maior. Mas o meu filho chorava e esperneava como se eu lhe estivesse a fazer algum mal horrível e insistir foi um erro crasso para ele, para mim e para o pai. Foi francamente traumático para mim e acho que uma série de tiques que ele ganhou na infância advêm daí. Infelizmente, a minha excitação ultrapassou o racional e eu não liguei à semântica do folheto do Centro de Saúde que dizia "Aos quatro meses, o bebé pode começar a ingerir alimentos sólidos". PODE e não TEM DE. Faz toda a diferença. Por causa disso, com os outros, comecei a prestar atenção a pequenos sinais que indicavam que o bebé estava pronto para iniciar alimentação sólida. O ter a sensação que dar de mamar não deixava o bebé tão satisfeito assim e o facto de o bebé seguir a colher com o olhar e abrir a boca foram juntos o mais evidente. Cada um deles a seu tempo e a transição correu lindamente,.
Felizmente para mim, tenho tido várias oportunidades para aprender a lidar com um recém nascido. Cada um dos meus filhos foi único desde o primeiro instante, diferente dos outros, com gostos e necessidades muito próprias. Com eles aprendi que cada um é como é e nós, enquanto pais e cuidadores, só temos de observar, respeitar e adaptar. Com esta gravidez, perguntam-me várias vezes como é que eu pretendo fazer acerca do dormir, do dar de mamar, etc, ao que eu respondo invariavelmente:
- Como o bebé quiser e eu conseguir. Simples.

03/05/2016

Baby #4

Soube há pouco, o Biscoitinho número quatro vai ser um rapaz!
Estou completamente histérica, nem caibo em mim de contente!
Por outro lado, todas as pessoas à minha volta têm reações de desconsolo, atrevem-se mesmo a suspirar muitos "ooooh" e "que pena", ou mesmo bradando aos Céus por serem quatro rapazes.
A verdade é que quatro rapazes, quatro filhos saudáveis, é caso para dar graças a Deus e a todos os santos cá de casa, que não é coisa que se veja todos os dias.
Além do mais, a logística familiar não se altera assim tanto nem precisamos de nos preocupar com grande coisa, que já sabemos ao que vamos e é mais um para o molho.
Todos sabemos que os rapazes têm a vida muito mais facilitada, não são assediados constantemente na rua, nem violados à porta de casa, não aparecem grávidos, têm mais hipótese de terem uma carreira profissional de sucesso, porque a colega de trabalho com filhos pequenos é que vai ser posta na prateleira à primeira oportunidade.  Digo isso por experiência própria.
Só por isso, já é um alívio ser mãe  só de meninos.
Noutros tempos, haveriam de erigir estátuas à minha pessoa por só ter filhos varões!

21/04/2016

Incógnitas

A médica pergunta-me porque estou eu já cheia de contrações.
Porque será?


27/03/2016

Santa Páscoa

O Renascer de Cristo, da Natureza, e da criança que há dentro de mim ;)

22/03/2016

Riqueza da mamã

"Mãe, porque é que deixas levar tantos paus para casa? Assim vamos ficar riiicos de paus!"

08/03/2016

Dia internacional da mulher

Neste dia em que lembramos a morte e as injustiças que ameaçam o sexo fraco, eu fui fazer a primeira ecografia do meu quarto filho e celebrar uma capacidade única e exclusiva das mulheres - gerar vida.
No dia em que as mulheres forem, sem exceção, tratadas e valorizadas como são os homens, eu celebrarei triunfante e feliz. Até lá, só tenho pena.

14/11/2015

Paris, Paris

Vês, mãe, tu que detestas refugiados, vês? É disto que eles fogem.
Estou agora a ler o Le Monde e aperta-se-me o coração ao ler esta notícia, que horror, já viste, parece o 11 de Setembro aqui tão perto. Imagina lá tu, nunca pensámos que isto fosse suceder neste continente tão democrático, a guerra contra o terrorismo era invenção americana, sabíamos lá.
Percebes agora porque é que aquelas pessoas se arriscam num barco de borracha? Percebes agora porque é que há tantos e são cada vez mais? Consegue o teu coração deixar entrar um pouco de emoção por esta gente desesperada? Consegues ao menos deixar de criticar os que tentam fazer alguma coisa para amenizar o sofrimento desta gente?
Nunca pensaste que um dia pudesses ser tu a sentir na pele o medo das bombas, pois não? As últimas guerras que viste foram lá de longe, do outro lado do ecrã, uma imagem distante que confundias com um filme de Hollywood cheio de efeitos especiais. Quando as torres gémeas caíram, ainda pensaste que havia um oceano inteiro a separar-nos do terrorismo. Mas e quando foi em Madrid? E quando foi em Londres? E agora, este, assim de repente, tanta gente a fugir de outra gente armada até aos dentes, fuzilamentos a sangue frio filmados em directo por alguém que ía só a passar?
Ainda detestas refugiados?
Começará a passar-te pela cabeça a ideia de que um dia poderás ser tu? Sim, que por este andar, o melhor é começares a juntar dinheiro, porque vais precisar dele para pagar inflacionadas as passagens para bem longe. E já pensaste na tua família? Não seria bom ter alguém do outro lado, mesmo um perfeito desconhecido, que te desse as boas vindas à segurança, te estendesse roupa, comida, uma palavra de alento, te ajudasse a não desistir até encontrares outro lugar para viver? Já te imaginaste a refazer a tua vida inteira num sítio estranho, numa língua estranha, sem equivalências, sem conhecer ninguém? Um dia podes ser tu, posso ser eu, podemos ser nós.

28/09/2015

2015, o ano de todas as perdas

2015 fica na minha memória como o ano de todas as perdas.
Foi o ano em que o meu filho se perdeu, para logo ser encontrado são e salvo. Foi o nosso pequeno milagre de Natal.
Outro filho que quase se perdia e foi resgatado por uma vontade fenomenal. Um filho que se deu bem e que continua bem.
Um filho que não o chegou a ser, que perdemos os dois.
A avó mais querida que nos deixou. Que me deixou, com a sua bênção e a tristeza imensa de nunca mais me ver. Diz que um passarinho vinha pousar no seu peito ao dia em que adormeceu para sempre.
Foi também o ano em que eu cresci.


11/05/2015

A minha mãe cheira a...

Enquanto as outras mães cheiram como as mães devem cheirar, a morango, a perfume, a creme e a flores, eu devo ser uma coisa fantástica, porque o Novo Biscoito acha que eu cheiro a arco-íris!

17/04/2015

Sinestesia ou o mundo a cores

Já há algum tempo, escrevi sobre como os números me aparecem ordenados numa espécie de roda oval que paira no ar, onde cada algarismo, cada qual da sua cor específica, surge aumentado e em primeiro plano sempre que é mencionado. Julgo que também descrevi a forma como faço cálculos, onde os tais algarismos coloridos surgem num plano tridimensional, como se fossem palpáveis. Escrevi esse post (que agora não encontro) porque descobri através de uma notícia no jornal, que essa visualização não era habitual, mas não era rara. Sempre pensei que fosse assim com toda a gente. Afinal, se cada letra tem uma cor específica, pois claro que cada nota musical também.
Escrevo agora, porque parece que há mais pessoas no mundo que vêm cores quando escutam música, e que mais uma vez, isso não é a norma, mas não é raro.
Quem me dera ter sabido mais cedo para ter tido esta ideia! Quem me dera conseguir mostrar aos outros como é colorido o meu mundo cada vez que alguém fala ou toca algum instrumento!
Já agora, o trompete é amarelo e o meu nome é um arco-íris:

Filipa Azevedo

31/03/2015

Traquinices

O novo Biscoito está a atravessar uma fase muito criativa.
Depois do "aquele homem é gordo!" bem alto e a apontar nitidamente para a corpulenta criatura, para ele, todo o mundo que o rodeia agora é totó ou é pum.
Ultimamente, um diálogo típico com o N.B. costuma ser assim:

- Joãozinho, onde vais?
- Pum!
-Vais onde?
- Dar um pum!
- Onde está o teu irmão?
- O mano é totó! Tu és totó!
- Ai, João, pára com isso!
- Totó! Totó!
- Calça mas é os sapatos, rapaz, está quieto!.
- O sapato é pum, eu tenho um pum! Pum! Pum!

E é isto o dia todo e a toda a hora. Já não há paciência, não sei  o que faça e já nem sequer me lembro de quanto tempo costumam durar estas fazes idiotas que levam qualquer familiar à loucura. Mas não deixa de ser absolutamente adorável a cara dele quando diz pum, tão feliz com a traquinice que até brilha!
É melhor deixá-lo e esperar que passe.