11/04/2007

Mattosão


Ontem li um artigo na Única (7 de Abril) sobre 0 Professor José Mattoso. O homem-bíblia de História Medieval, carinhosamente chamado O Mattosão desde o primeiro ano da faculdade, ei-lo que tornava para me assombrar as noites antes dos exames.
Os exames já lá vão, mas confesso que tenho saudades. Devo pertencer a uma minoria perdida nos confins das bibliotecas, que reclamava por não ficarem abertas mais horas, que raio, assim não consiguia ler tudo o que queria. Sempre gostei de ler Mattoso. Escreve bem, serve de referência a qualquer outro medievalista que se preze e eu acabava por lá ter de me levantar e ir buscar a Identificação de um país. Ensaio sobre as origens de Portugal, 1096-1325 (2 vols.Lisboa: Estampa, 1985 - 1986), ou o básico Ricos-Homens, infanções e cavaleiros. A nobreza medieval portuguesa nos sécs. XI e XII (2ª edição Lisboa: Guimarães Editores, 1985), ou até o Portugal medieval. Novas interpretações (Lisboa: IN-CM, 1985). Foi assim que desapareceram todas as minhas dúvidas mais secretas no que respeitava à história do meu país, surgiram outras, e me pasmei por uma simples letrinha* mal interpretada num arquivo poder levantar questões que dividiam catedrádicos durante gerações sucessivas, pois poucos escreviam, e os que o faziam nunca escreviam da mesma maneira duas vezes seguidas.
Então resolvi especializar-me em Paleografia, e decifrar gatafunhos com mais de quinhentos anos para coisas destas não acontecerem mais. Acabei sobretudo a saber distinguir a letra de um religioso da de um administrativo, e que ao longo dos tempos, as repartições de finanças e os notários públicos não sofreram modificações tão profundas quanto isso. Não fosse o enjôo provocado pela rodagem dos microfilmes e a alergia crónica ao pó, juro que acamparia na Torre do Tombo. Desventuras.
Mas o que mais me impressionou na entrevista, mais do que a ideia que tenho do Professor José Mattoso, o ex-beneditino, o ex tudo e mais alguma coisa que um historiador pode almejar ser, foi o homem. O homem velho, que espera a morte. O homem velho que se desapega das coisas, excepto dos livros. Os livros que armazenam toda a memória, tudo o que leu, escreveu. A quietude da leitura. O prazer solitário. O silêncio. A essência das coisas, dele próprio, diz, apreende-se melhor no silêncio. Há que aprender com ele, com o silêncio das suas palavras impressas. E deixar o espírito viajar mais depressa.

*Esta questão prende-se com a chamada problemática do ermamento durante a reconquista cristã da Península Ibérica. Se interpretarmos a palavra em questão como ermamento, somos forçados a admitir que as populações critãs resistentes no norte da Península criaram um vazio territorial, que impediu os muçulmanos de avançar por não encontrarem as infra-estruturas sociais e materiais necessárias à sua implantação no local - por isso é que o Allambra é no sul e não no norte; se por outro lado, a interpretarmos como armamento, admitimos a possibilidade de as populações cristãs terem formado uma cintura bélica que serviu de travão à total islamização da península. Leiam e descubram o que o Mattoso pensa disso.

1 comentário:

Ana disse...

escreve mais e mais... venho cá todos os dias..

Beijinho

Pratita